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Todo Mundo É Um Pouco Autista?

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PSICANÁLISE
Autor
Gizelly Moura
18 de junho de 2026
No dia 18 de junho, celebra-se o Dia do Orgulho Autista, uma data que convida à reflexão sobre inclusão, respeito e reconhecimento da neurodiversidade. Entre as frases mais repetidas quando o assunto é autismo está: “Todo mundo é um pouco autista”. Embora muitas vezes dita com a intenção de demonstrar empatia, essa afirmação merece ser analisada com cuidado.

Afinal, será que todo mundo é mesmo um pouco autista?

Quando a semelhança não significa equivalência

É verdade que muitas características presentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA) também podem aparecer em pessoas não autistas. Algumas pessoas preferem rotinas, outras têm dificuldades em determinadas interações sociais, sentem desconforto com barulhos ou possuem interesses muito específicos.

No entanto, ter uma característica isolada não significa estar dentro do espectro autista.

Da mesma forma que sentir tristeza não significa ter depressão, ou sentir ansiedade antes de uma prova não caracteriza um transtorno de ansiedade, apresentar alguns comportamentos semelhantes aos observados no autismo não torna alguém autista.

O diagnóstico envolve um conjunto de características que impactam significativamente a forma como a pessoa percebe, interpreta e interage com o mundo.

O problema por trás da frase

Quando alguém diz que “todo mundo é um pouco autista”, ainda que sem intenção de ofender, pode acabar minimizando experiências reais vividas por pessoas autistas.

A frase produz um efeito de banalização. Ela sugere que as dificuldades enfrentadas por pessoas autistas são apenas versões ampliadas de experiências comuns a todos. Mas não é disso que se trata.

Pessoas autistas frequentemente enfrentam desafios relacionados à comunicação, interação social, processamento sensorial, adaptação a mudanças, compreensão de regras sociais implícitas e inclusão em ambientes construídos para pessoas neurotípicas.

Reduzir essas vivências a algo que “todo mundo sente” pode invisibilizar sofrimentos concretos e necessidades legítimas de suporte.

O capacitismo que muitas vezes passa despercebido

A frase também pode carregar uma forma sutil de capacitismo.

Capacitismo é toda atitude, crença ou comportamento que inferioriza, invalida ou desconsidera pessoas com deficiência ou diferenças neurológicas.

Quando alguém responde ao relato de uma pessoa autista dizendo “mas todo mundo é um pouco autista”, frequentemente está desconsiderando a singularidade daquela experiência. Em vez de escutar, compara. Em vez de compreender, normaliza.

O resultado é que a pessoa autista pode sentir que suas dificuldades não são reconhecidas ou levadas a sério.

O que a Psicanálise pode contribuir?

A Psicanálise não se propõe a reduzir o sujeito a um diagnóstico. Pelo contrário, interessa-se pela singularidade de cada pessoa.

Do ponto de vista psicanalítico, duas pessoas com o mesmo diagnóstico jamais serão idênticas. Cada sujeito constrói sua própria forma de estar no mundo, relacionar-se, sofrer e encontrar recursos para lidar com suas experiências.

Por isso, falar sobre autismo exige cuidado para não transformar pessoas em rótulos, mas também para não apagar diferenças importantes em nome de uma falsa igualdade.

Reconhecer que alguém é autista não significa limitar essa pessoa ao diagnóstico. Significa reconhecer que ela possui uma forma particular de experimentar o mundo e que essa experiência merece respeito.

Mais escuta, menos generalizações

Talvez a intenção por trás da frase “todo mundo é um pouco autista” seja criar proximidade. No entanto, proximidade verdadeira não acontece quando apagamos as diferenças, mas quando somos capazes de reconhecê-las sem preconceito.

Neste Dia do Orgulho Autista, o convite é simples: ouvir mais e generalizar menos.

Porque ninguém precisa ser “um pouco autista” para respeitar, acolher e lutar por uma sociedade mais inclusiva.

Precisamos apenas estar dispostos a enxergar o outro em sua singularidade.

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